Com a crise da água, segue um texto escrito para a Revista do CAU – Móbile numero 2.

CIDADE, UM ECOSSISTEMA

São Paulo, que era da garoa, ficou marcada nas últimas décadas por chuvas fortes e a ocorrência de enchentes. E agora a cidade passa por uma crise hídrica de falta de abastecimento de água. Tais eventos sinalizam a maneira que nos relacionamos com o espaço urbano e como planejamos e construímos a cidade. A crise atual deve-se à seca mas também à demanda crescente por água, dependência da centralização dos reservatórios, uso inadequado dos recursos hídricos, desmatamento e ocupação das áreas de mananciais.
Para interromper este ciclo, que poderá acentuar cada vez mais a crise hídrica, é preciso que as medidas reparadoras reconheçam as cidades como um ecossistema, espaço de interação permanente e dinâmica entre clima, relevo, solo e biota.
O meio urbano é um ambiente intensamente influenciado pela ação humana e também faz parte de sistemas geológicos, hidrológicos e biológicos que garantem a manutenção da vida dentro deste território. A gestão sustentável das cidades deve prever que estes sistemas e seus ciclos funcionem adequadamente.
Existem opções de desenho urbano que respeitam estes ciclos e tratam a cidade como um sistema ecológico integrado. Ao mesmo tempo em que podemos desfrutar de espaços públicos e equipamentos urbanos, estes mesmos locais poderiam estar prestando um serviço ecossistêmico. Este serviço se refere aos recursos que o ecossistema fornece para manter a vida na terra, como por exemplo água, alimento e combustíveis. Pode-se entender que a oferta adequada de serviço ecossistêmico é um dos fatores que caracteriza o bem estar humano.
Imagine um jardim que coleta a água da chuva, uma praça que produz alimentos ou um parque de diversões que enquanto as crianças brincam é gerada energia para iluminação pública. Chegar a este ponto talvez seja mais simples do que pareça, mas para isso é necessário que se mude a perspectiva que temos a respeito dos elementos que compõem a cidade. Precisamos desenvolver uma mudança no nosso olhar, despertar a capacidade de perceber o espaço urbano como um ambiente rico em recursos que caso não sejam utilizados poderão gerar poluição.
É como a água da chuva que cai na parte alta da cidade: se for coletada, é energia potencial para ser utilizada, caso não seja armazenada, pode se tornar uma enxurrada causando prejuízos no espaço que está abaixo. Equipamentos urbanos podem ser desenvolvidos de modo que a chuva seja tratada como recurso hídrico e energético.
São Paulo está diante de um novo ciclo, a cidade e seus moradores deverão se adaptar a esta situação, assim como políticas públicas precisarão ser consolidadas. Na escala das edificações é necessário que se invista na conscientização, construção e uso de sistemas de captação e armazenamento de água da chuva assim como no reuso da água proveniente de pias, tanques e máquinas de lavar. Na escala da cidade podemos melhorar a qualidade do ar e condições climáticas, reduzir o desconforto e riscos causados por enchentes implementado sistemas de infraestrutura verde para águas urbanas como “jardins de chuva”, “biovaletas”, “lagoas pluviais” ou “coberturas plantadas”. E, na escala regional, evitar que os períodos de seca sejam cada vez mais agravantes recuperando e protegendo de maneira efetiva os nossos mananciais.
A proposta da infraestrutura verde é de planejar, projetar e manejar construções de infraestruturas de modo a transformá-las em espaços com diversas funções integrando sistemas sociais (lazer, paisagismo, produção de alimentos) e ecológicos (qualidade do ar, regulação do clima, drenagem, armazenamento e escoamento de águas da chuva, tratamento de esgoto). A proposta é interessante, podemos aproveitar a oportunidade desta crise hídrica para projetar elementos que tratem a cidade como um ambiente rico em recursos.
Tratando deste tema, é possível encontrar inúmeras publicações que trazem significativas contribuições como é o caso do artigo “Infraestrutura Verde: uma estratégia paisagística para a água urbana” de Nathaniel S. Cormier e Paulo Renato Mesquita Pellegrino, na revista Paisagem e Ambiente, n.25, p. 125 -142, 2008.
Uma referência mais recente é o livro de Cecilia Herzog Cidade para Todos: (re)aprendendo a conviver com a Natureza, Mauad e Inverde, 2013. O livro corrobora uma visão de cidades como ecossistemas apresentando casos reais de implementação de infraestrutura verde e políticas públicas como, por exemplo, o caso da lei norte-americana Green Infrastructure for Clean Water Act of 2011, que estimula a introdução de infraestrutura verde nas áreas urbanizadas buscando evitar enchentes, melhorar a qualidade das águas e reduzir os efeitos negativos da urbanização nas mudanças climáticas.
Primeiro a cidade se adaptou à paisagem, depois, ao crescer, agressivamente transformo-a, constituiu uma segunda natureza, que desestabilizou o ecossistema. Vieram as enchentes, desmoronamentos, assoreamentos e outras catástrofes ambientais. Agora, com a falta de água, mais um capítulo de nossa tragédia urbana, temos nova oportunidade para reconhecer os erros e reinventar as cidades. Arquitetos, urbanistas e paisagistas deverão ativamente encarar esse desafio, como tarefa política e projetual.

Tomaz Lotufo é arquiteto, permacultor e educador.

Cisterna Passo a Passo: E para quem quiser armazenar água da chuva de maneira adequada e com autonomia, Clique aqui Cisterna para acessar um PDF com passo a passo de como construir uma cisterna em ferrocimento.

Como fazer um minhocário doméstico e um pouco de jardim vertical…

Minhocário Domestico e Jardim Vertical, veja nesta animação clicando aqui: Um chute para o futuro

Dissertação de mestrado: Um novo ensino para outra prática: Rural Studio e Canteiro Experimental, contribuições para o ensino de arquitetura no Brasil

Está disponível no site da USP a dissertação de mestrado que desenvolvi com orientação do Prof. Dr. Nabil Bonduki.

Trata-se de uma reflexão sobre caminhos para um ensino de arquitetura baseado em práticas construtivas/pedagógicas em comunidades. Segue o link de acesso: Ensino de arquitetura em comunidades

Pintura Natural

Para aqueles que se interessam por pintura natural, segue um artigo da jornalista Liana John:

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/biodiversa/para-pintar-o-sete-entre-quatro-paredes/




%d blogueiros gostam disto: