Arquivo Mensal de junho/2010

100% Barro

Me encanta ver o Barro, o cheiro, suas formas e generosidade.
Muito me preocupa a dureza que representa construir uma casa. Quanto de dinheiro deve ser desembolsado para este ato de emancipação, comprar terreno, material e mão de obra.
O que intriga é que deste montante, mais de 2/3 é para comprar material.
E da onde ele vem e para onde ele vai?
Geralmente vem de muito longe através das mãos de grandes corporações e multinacionais. Sem contar com o custo ambiental, uma conta que está cada vez mais alta nos vazamentos de petróleo, enchentes, secas… Toda vez que investimos nestes materiais de construção fazendo uso dos mesmos, estamos proporcionando a conservação de um sistema a serviço do acumulo de riquezas para um exclusivo e reduzido grupo de indivíduos que tem o direito “divino” do alto poder de consumo (consumo este que está acabando com o nosso precioso planeta), comprar o carro mais caro e trocá-lo todos os anos, construir mansões e fazer luxuosas festas particulares com orçamentos enormes. Um único evento extravagante poderia ser substituído por algumas noites abrigadas e refeições dignas para milhares de excluídos.
Quanto mais tenho a oportunidade de trabalhar com matéria prima local, ou seja, utilizando recurso o mais próximo da obra que se pode encontrar, me deparo com o lado da simplicidade no ato de construir, em contraste, percebo como é caro ao meio ambiente e a maior parte da população sustentar este sistema de compras.
Será que para ter uma casa própria deve ser tão custoso (social, econômico e ambiental) assim?
Com uma fachada de que se pretende resolver o problema habitacional do país e o velho golpe do “desenvolvimento” (para quem?), surgem os programas de governo os quais na verdade, se mostram como mais um mecanismo para perpetuar uma secular estrutura paternalista no Brasil, que quando é desmascarada se reinventa com uma nova face, desta vez ela se finge de esquerda, uma política “social” que oferece ao povo crédito a juros baixos para construir sua casa, comprar automóveis e eletrodomésticos. No caso da habitação, se exige um sistema construtivo com técnicas de dominação, fundamentais para o capital e ao invés de assistência técnica adequada, de maneira que se reproduz o velho modelo, onde se gasta muito, destinando a maior parte dos recursos para poucos e grandes grupos econômicos dos “amigos” do governo. Quem cria o programa logicamente depois é convidado para a festa.
Aqui no interior paulista, vejo bairros periféricos inteiros sendo construídos rapidamente baseados no programa “minha casa, minha vida”, mais uma vez se busca quantidade de moradias construídas em detrimento da qualidade de vida, esta poderia acontecer com propostas de urbanização, e sistemas que ofereçam qualidade ambiental para a área como, por exemplo, captação, armazenamento e infiltração (este eu destaco, pois de nada adianta os anteriores se o destino da água não for o solo) da água da chuva, evitando as decorrentes e crescentes catástrofes causadas pelas fortes chuvas.
Além disso, mesmo muitos tendo acesso ao crédito, poucos conseguem pagar e ao mesmo tempo ter uma vida digna, a maioria passa a vida trabalhando muito, indo para casa apenas para dormir poucas horas, pois precisam pagar a prestação, afinal, o valor de construir uma casa é altíssimo. Portanto estes programas precisam ir mais além, ter urbanismo, planejamento ambiental e assistência técnica antes durante e depois da construção das casas, permitindo à população menor necessidade de recursos econômicos e maior aproveitamento dos recursos humanos, coisa que as comunidades carentes mais têm.
O que isso tudo têm a ver com barro?
Trago como exemplo a construção de uma casa.
Minha sorte como Arquiteto é poder trabalhar para pessoas dispostas a aceitar o uso de técnicas e materiais adequados para a região onde a obra está acontecendo.
Trago o exemplo da Residência de Stelio Paca , onde foi realizada uma reforma e ampliação. Na parte nova, fizemos uma estrutura de Eucalipto roliço e fechamentos à base de terra crua fermentada no esterco, sobre uma trama de bambu, conhecido como Pau a pique. Os acabamentos foram trabalhados a partir de receitas que levam polvilho da mandioca, leite em pó e linhaça. As portas e janelas são de madeira.
Optamos por este caminho, pois a cidade de Botucatu, onde a casa se localiza, tem muita terra boa para a construção e Bambu, de um tipo que não é bom para estrutura, mas excelente na armação do barro.
Apesar de ser uma técnica construtiva muito comum, geralmente encontramos paredes rachadas, a do Stelio não tem rachaduras. Aprendi muito a trabalhar com terra crua em um filme documentário Argentino apresentado por um grande amigo chamado “El barro, Las manos, La casa”, dirigido por Gustavo Marangoni, trata-se de documentar e mostrar a riqueza do trabalho ao longo de dois anos, de um mestre construtor chamado Jorge Belanko que constrói com terra crua, na região de El Bolson, Argentina.
O que mais me tocou no filme foi entender que o elemento principal para uma construção sensível como esta, é desenvolver a arte do bem construir: Com as ferramentas adequadas, conhecimento apurado sobre o material, e um movimento das mãos com a mesma intensidade que um jogador usa os pés, por isso esta arte depende de um profundo amor pelo fazer. O construtor Jorge Belanko é assim, vê-lo trabalhar é tão encantador como quando assistimos a um belo espetáculo de dança. E no final fica aquela vontade de sair por ai rebocando as paredes com terra, palha e esterco.
Inclusive a casa do Stelio. No inicio da obra fizemos um acordo: “Fazer o melhor e mais belo Pau a pique que já fizemos”. E é assim que ela é. Até que venha a próxima, mais esta nunca será menos apreciada, pois já foi a mais bela.
No final da obra a tinta foi feita a base de grude de polvilho e pigmentos. As paredes ficaram tão vivas (no sentido artístico e biológico), que parecem querer falar. Falam através do brilho nos olhos do mestre de obras Sr. Antonio ao mostrar sua obra, dizendo “é 100% barro e não tem trinca, quando esfregamos as mãos, não suja”.
No brilho dos olhos do Sr Antonio eu leio “Autonomia”.
Se uma casa pode ser verdadeiramente bonita e bem construída, toda de barro, como um país com tanta terra pode ter gente sem teto?
O mesmo poderia dizer, que com tanto território e terra fértil, tem gente passando fome assistindo enormes áreas plantadas com soja. Criando verdadeiros desertos.
Será que os atuais programas habitacionais têm realmente como objetivo acabar com o déficit habitacional?