Arquivo Mensal de maio/2011

Luto: Novo Código Florestal

Meus amigos, como alguns de vocês devem saber, o texto base do novo código florestal foi aprovado pelo plenário da Câmara dos deputados por 410 a 63 na última terça-feira.
Um texto que passa por cima das vítimas dos últimos desastres ambientais e assassinatos, como o ocorrido na noite da mesma terça-feira, no sul do Pará, dos castanheiros e ambientalistas Zé Claudio Ribeiro e sua esposa, Maria do Espirito Santo, por denunciar áreas de desmatamentos ilegais.
O fato é que estamos nos preparando para um futuro que será de escassez de recursos, catástrofes ambientais e conseqüentemente graves problemas sociais, por isso, o mundo inteiro está mobilizado em diversas escalas de ação, desde pequenos círculos de amigos, cursos, mutirões de construção, plantio, articulações para o fortalecimento da agricultura familiar, convenções climáticas, Rio + 20, etc.
Na contra mão disso tudo vem este texto agraciado pela líder da bancada ruralista senadora Kátia Abreu e redigido pelo deputado Aldo Rebelo, que por coincidência, nesta ultima eleição teve uma bela doação para a campanha de empresas como a Bunge, fabricante de fertilizantes.
Conhecemos a história do Brasil e nos espantamos ao perceber como a construção de seu espaço urbano e a ocupação de suas terras, que hoje formam imensos latifúndios, foi feita a base de grilagens, assassinatos e de muita impunidade. O mais impressionante é que mesmo sabendo de tais barbaridades ao longo de toda a história brasileira desde as primeiras chacinas a comunidades indígenas, em 24 de Maio do ano de 2011, 410 deputados aprovam um texto que deixa na impunidade muitos dos autores deste processo, anistiando quem desmatou nosso território (entre outras barbáries) até o ano de 2008.
Segue endereço com a lista de quem votou a favor e contra neste novo (velho) capítulo de nossa história. Confira como votou o deputado que você ajudou a eleger.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/921040-veja-quem-votou-contra-e-a-favor-de-codigo-florestal-de-relator.shtml
Sugiro um luto de todos nos próximos dias até que o texto passe pelo Senado. A proposta é colocar TODOS OS DIAS alguma peça na roupa que represente sinal de luto. Passe o convite adiante, esta proposta poderá se multiplicar bem rápido. Isso junto a muitas outras manifestações que estão acontecendo por ai, pode formar uma massa crítica e ter um efeito positivo com o Senado e em seguida com a Presidenta.
Acabo de colocar uma faixa preta no meu braço, pode ser também um broche com um laço preto, uma fita no cabelo, qualquer símbolo que represente este luto e que mostre aos outros que algo está errado… O importante é mostrarmos de todas as formas possíveis que não aguentamos mais, que estamos enfurecidos e que não vamos ficar quietos!

Grande abraço a todos, de LUTO

Tomaz

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Arquitetura Florescentista

Arquiteto Tomaz Lotufo – Texto escrito para o livro de Andre Feliciano

Todos nascem jardineiros.
Mas, o tempo passa e o jardineiro se distancia de suas origens, esquece que em suas mãos existe uma sabedoria milenar acumulada, onde através dos sentidos pode entender como é capaz de compartilhar com um maravilhoso jardim. É comum deixarmos de ser jardineiros quando escolhemos uma profissão.
Todos nascem jardineiros.
Ter consciência disso nos permitirá crescer integralmente, com as mãos, os pés, a cabeça, os olhos, o nariz, o ouvido, a boca, a pele, de corpo inteiro e principalmente, de coração. Com todos os nossos órgãos despertos, poderemos encontrar o nosso ser manifesto e o estado da arte começará.
Neste belo jardim,
Todos serão profissionais. Enraizados em uma profunda percepção de para onde ir e o que fazer. Convictos a respeito das melhores ações a beneficio da vida, sabendo a hora de plantar, colher, alimentar e descansar.
Não formaremos mais Arquitetos, agora, formaremos Jardineiros Arquitetos.
No momento da entrega do diploma estes futuros profissionais jurarão sobre uma pequena página, com apenas uma frase:
“Seja um construtor de solo fértil, cuide para que a vida se manifeste distribuindo sementes e permitindo que outras sejam plantadas.”
E então o jovem Jardineiro Arquiteto sairá por aí semeando Arquitetura.
Arquitetura será a arte do cuidar.
Cuidar é manter. Quando se cuida, os espaços por onde o homem circula ficam melhores ou iguais ao que eram. Nunca pior. A semente ou desabrocha, ou fica no mesmo lugar esperando a oportunidade de brotar.
Seja um construtor de solo fértil.
Ao cuidar do solo que nos nutre, ele usará o mínimo da taxa de ocupação para construir. Saberá que sem água, não há solo, e sem solo não há água, pois a água mora no solo, e o solo para estar vivo precisa da água. O terreno será como um grande coração, receptivo e carinhoso.
Não há um destino melhor para a água que cai sobre os nossos telhados do que em um belo jardim.
Quando chover, a água não correrá desesperada a procura de um lar, ela será toda absorvida na terra, onde lentamente transportará nutrientes e os entregará às raízes das plantas, permitindo a relação entre todos os seres que vivem no solo e do solo.
O ciclo de vida da água é uma grande viajem, com destino nos lençóis freáticos. Começa passando a infância protegida em um berçário cheio de árvores, antes, desabrocha suavemente entre as pernas da mãe nascente. Graciosa, escorrega através das pedras em sua primeira aventura ao encontro dos rios para desfrutar a juventude. Agora, está madura e com coragem para curtir a fase adulta nos oceanos. A liberdade conquistada na imensidão do mar torna a vida da água um caminho cheio de encontros e aprendizados para quando estiver pronta para evaporar seu corpo etéreo vai ao céu concluir o ciclo de vida conhecendo a mais pura manifestação de espiritualidade. Idosa, muito sábia e amorosa, cai como chuva levando o seu conhecimento para os seres vivos que desejam evoluir e ter força vital. Com passos lentos caminha dentro do solo visitando o cérebro das plantas que são enormes cadeias de neurônios os quais chamamos de raízes. Ao brotarem as flores, os ensinamentos trazidos ao longo do caminho das águas transparecem por meio de cores, padrões, aromas e sabores para os jardineiros e todos que vivem fora da terra.
Quanto mais olharmos as flores, mais belos os gestos.
Se a fertilidade do solo é a irmã que cresce junto com a água, permitindo o desenvolvimento das flores e o encantamento dos homens e mulheres, o primeiro passo de um jardineiro arquiteto será pensar em um terreno como um escultor, desenhá-lo com a delicadeza das mãos garantindo o destino das águas.
Formará um lugar extremamente fértil e úmido, caberá às suas parceiras minhocas dar os retoques finais. Preparar a terra para formar uma esponja e acolher as raízes das plantas e as casas dos pequenos animais.
Habitat só será possível quando todos os seres puderem viver juntos e em paz.
Cada terreno habitado, uma escultura que se funde a paisagem. Uma edificação será responsável por cuidar de toda a água que cair sobre ela e seu teto. Para isso, a cidade será um imenso jardim, mantido por seus cidadãos.
Todos serão jardineiros.
As escolas, ruas, praças e casas, afinal, estarão rodeadas de lindas flores, arbustos e árvores. Graças ao cuidado do homem, a parceria da minhoca, ao acolhimento do solo e a sabedoria das águas.
O Jardineiro Arquiteto, um aprendiz das flores, será tão sensível que poderá cuidar da vida como uma mãe.
Ao cuidar da vida, qualquer material ou produto tóxico será banido. A palavra lixo sairá dos dicionários e conseqüentemente o que chamamos de esgoto será chamado de águas nutridas. Ninguém desejará jogar ele fora, afinal, existe um belo jardim para cuidar. Então, cada casa terá seu próprio sistema biológico de purificação de água, que será apenas a cópia de seu ciclo natural. Veremos nos jardins, brejos cheios de Bananeiras, Mamoeiros, Açaís, Taiobas, Inhames, Taboas, Lírios, Papiros entre outras. Lá, a água nutrida, disponibilizará seus nutrientes para as plantas e seguirá o seu destino natural. Estes ambientes criados pelo homem imitando os brejos serão um lugar com abundância de frutas e biomassa.
No cenário do final da tarde, veremos uma diversidade enorme de pássaros cantando em um céu azul alaranjado, crianças lambuzadas de manga correndo, homens e mulheres caminhando de mãos dadas gentilmente oferecendo uma fruta que acabaram de colher e idosos contando histórias sobre tempos antigos onde pássaros viviam presos em gaiolas e a comida tinha que ser comprada.
A vida será uma abundância compartilhada. Todos comemorando a generosidade das frutas encontradas nos quintais. Todos aprendendo. Todos educando.
Ao compartilhar, a obra será uma escola e todos serão professores, afinal ensinar é um rico processo de aprender. Nela se reunirão arquitetos, engenheiros, estudantes, mestres de obras, pedreiros, serventes e futuros ocupantes, todos jardineiros. Estes estarão sempre dispostos a compartilhar visões e conhecimentos, sobre uma técnica, um material, e principalmente como cuidar, pois o objetivo é fazer um melhor e mais belo jardim. Como gratidão, depois de uma troca entre estes diversos saberes, haverá uma troca de sementes, afinal, cada jardim tem suas particularidades.
A ideologia do amor estará escrita no caminho das flores. Todos os excedentes que a incrível capacidade do homem de multiplicar pode gerar estarão constantemente circulando. Por isso, não haverá lixo. Pois esta palavra foi inventada para algo que não tem destino. A palavra entulho perderá o sentido.
Tudo e todos terão um destino, sempre há espaço neste belo jardim.
A cidade terá uma população capaz de produzir tudo o que precisa para se manter viva: alimentos, energia, materiais e água, como uma cidade jardim, habitada por jardineiros. Cada um desenvolverá o ofício que melhor faz, estará em constante busca de torná-lo cada vez mais interessante e o excedente de um será a necessidade do outro.
O Jardineiro Arquiteto e agora Urbanista, é um criador de oportunidades.
Ao projetar, cria o espaço dos encontros, das possibilidades. Como uma semente que desabrocha quando tem a oportunidade de encontrar um lugar nutrido com água, solo, matéria orgânica, vida e calor. Portanto, este Jardineiro Arquiteto projetará para pessoas como se fossem sementes, com o objetivo de ver flores. A sociedade precisará de espaços socialmente ricos e ambientalmente vivos para poder germinar as oportunidades e fazer parte desta encantadora florescência.
O ser humano vai florescer.
As ruas não serão mais feitas para os carros e sim para a vizinhança se encontrar. As praças serão como templos geradores de sabedoria e atividades práticas entre a comunidade. As casas despertarão o amor entre a família e os amigos, cada esquina terá um armário para deixar e recolher livros e sementes que podem ser compartilhados. E a vontade de fazer o jardim sempre mais belo será o que todos terão em comum.
A vida constrói vida, a grande questão do Jardineiro Arquiteto será “Quanta vida será poupada ou gerada através do desenho e construção de um projeto?”
Quanto mais viva, melhor e mais bela a Arquitetura.
Onde há vida, há beleza, e onde há beleza e vida, encontramos um jardim. E se em algum lugar existe um jardim, é porque ali é muito bom para viver!