Me encanta ver o Barro, o cheiro, suas formas e generosidade.
Muito me preocupa a dureza que representa construir uma casa. Quanto de dinheiro deve ser desembolsado para este ato de emancipação, comprar terreno, material e mão de obra.
O que intriga é que deste montante, mais de 2/3 é para comprar material.
E da onde ele vem e para onde ele vai?
Geralmente vem de muito longe através das mãos de grandes corporações e multinacionais. Sem contar com o custo ambiental, uma conta que está cada vez mais alta nos vazamentos de petróleo, enchentes, secas… Toda vez que investimos nestes materiais de construção fazendo uso dos mesmos, estamos proporcionando a conservação de um sistema a serviço do acumulo de riquezas para um exclusivo e reduzido grupo de indivíduos que tem o direito “divino” do alto poder de consumo (consumo este que está acabando com o nosso precioso planeta), comprar o carro mais caro e trocá-lo todos os anos, construir mansões e fazer luxuosas festas particulares com orçamentos enormes. Um único evento extravagante poderia ser substituído por algumas noites abrigadas e refeições dignas para milhares de excluídos.
Quanto mais tenho a oportunidade de trabalhar com matéria prima local, ou seja, utilizando recurso o mais próximo da obra que se pode encontrar, me deparo com o lado da simplicidade no ato de construir, em contraste, percebo como é caro ao meio ambiente e a maior parte da população sustentar este sistema de compras.
Será que para ter uma casa própria deve ser tão custoso (social, econômico e ambiental) assim?
Com uma fachada de que se pretende resolver o problema habitacional do país e o velho golpe do “desenvolvimento” (para quem?), surgem os programas de governo os quais na verdade, se mostram como mais um mecanismo para perpetuar uma secular estrutura paternalista no Brasil, que quando é desmascarada se reinventa com uma nova face, desta vez ela se finge de esquerda, uma política “social” que oferece ao povo crédito a juros baixos para construir sua casa, comprar automóveis e eletrodomésticos. No caso da habitação, se exige um sistema construtivo com técnicas de dominação, fundamentais para o capital e ao invés de assistência técnica adequada, de maneira que se reproduz o velho modelo, onde se gasta muito, destinando a maior parte dos recursos para poucos e grandes grupos econômicos dos “amigos” do governo. Quem cria o programa logicamente depois é convidado para a festa.
Aqui no interior paulista, vejo bairros periféricos inteiros sendo construídos rapidamente baseados no programa “minha casa, minha vida”, mais uma vez se busca quantidade de moradias construídas em detrimento da qualidade de vida, esta poderia acontecer com propostas de urbanização, e sistemas que ofereçam qualidade ambiental para a área como, por exemplo, captação, armazenamento e infiltração (este eu destaco, pois de nada adianta os anteriores se o destino da água não for o solo) da água da chuva, evitando as decorrentes e crescentes catástrofes causadas pelas fortes chuvas.
Além disso, mesmo muitos tendo acesso ao crédito, poucos conseguem pagar e ao mesmo tempo ter uma vida digna, a maioria passa a vida trabalhando muito, indo para casa apenas para dormir poucas horas, pois precisam pagar a prestação, afinal, o valor de construir uma casa é altíssimo. Portanto estes programas precisam ir mais além, ter urbanismo, planejamento ambiental e assistência técnica antes durante e depois da construção das casas, permitindo à população menor necessidade de recursos econômicos e maior aproveitamento dos recursos humanos, coisa que as comunidades carentes mais têm.
O que isso tudo têm a ver com barro?
Trago como exemplo a construção de uma casa.
Minha sorte como Arquiteto é poder trabalhar para pessoas dispostas a aceitar o uso de técnicas e materiais adequados para a região onde a obra está acontecendo.
Trago o exemplo da Residência de Stelio Paca , onde foi realizada uma reforma e ampliação. Na parte nova, fizemos uma estrutura de Eucalipto roliço e fechamentos à base de terra crua fermentada no esterco, sobre uma trama de bambu, conhecido como Pau a pique. Os acabamentos foram trabalhados a partir de receitas que levam polvilho da mandioca, leite em pó e linhaça. As portas e janelas são de madeira.
Optamos por este caminho, pois a cidade de Botucatu, onde a casa se localiza, tem muita terra boa para a construção e Bambu, de um tipo que não é bom para estrutura, mas excelente na armação do barro.
Apesar de ser uma técnica construtiva muito comum, geralmente encontramos paredes rachadas, a do Stelio não tem rachaduras. Aprendi muito a trabalhar com terra crua em um filme documentário Argentino apresentado por um grande amigo chamado “El barro, Las manos, La casa”, dirigido por Gustavo Marangoni, trata-se de documentar e mostrar a riqueza do trabalho ao longo de dois anos, de um mestre construtor chamado Jorge Belanko que constrói com terra crua, na região de El Bolson, Argentina.
O que mais me tocou no filme foi entender que o elemento principal para uma construção sensível como esta, é desenvolver a arte do bem construir: Com as ferramentas adequadas, conhecimento apurado sobre o material, e um movimento das mãos com a mesma intensidade que um jogador usa os pés, por isso esta arte depende de um profundo amor pelo fazer. O construtor Jorge Belanko é assim, vê-lo trabalhar é tão encantador como quando assistimos a um belo espetáculo de dança. E no final fica aquela vontade de sair por ai rebocando as paredes com terra, palha e esterco.
Inclusive a casa do Stelio. No inicio da obra fizemos um acordo: “Fazer o melhor e mais belo Pau a pique que já fizemos”. E é assim que ela é. Até que venha a próxima, mais esta nunca será menos apreciada, pois já foi a mais bela.
No final da obra a tinta foi feita a base de grude de polvilho e pigmentos. As paredes ficaram tão vivas (no sentido artístico e biológico), que parecem querer falar. Falam através do brilho nos olhos do mestre de obras Sr. Antonio ao mostrar sua obra, dizendo “é 100% barro e não tem trinca, quando esfregamos as mãos, não suja”.
No brilho dos olhos do Sr Antonio eu leio “Autonomia”.
Se uma casa pode ser verdadeiramente bonita e bem construída, toda de barro, como um país com tanta terra pode ter gente sem teto?
O mesmo poderia dizer, que com tanto território e terra fértil, tem gente passando fome assistindo enormes áreas plantadas com soja. Criando verdadeiros desertos.
Será que os atuais programas habitacionais têm realmente como objetivo acabar com o déficit habitacional?
Arquivo do Autor tomaz
Estaremos em uma matéria do programa “Almanaque Brasil” tratando sobre o pau a pique que passará este final de semana: Dia 19/junho (sábado), às 19h00, na TV Brasil; dia 20/junho (domingo). às 19h30, na TV Cultura com reapresentação nos dias 21/junho (segunda), às 20h00, na TV Brasil e 26/junho (sábado), às 18h00, na TV Cultura.
No final da década de 70 o Arquiteto Brasileiro Sérgio Ferro, exilado na França e professor da Escola de Arquitetura de Grenoble, escreve o livro “O Canteiro e o Desenho” (Ferro, Sérgio. O canteiro e o desenho, São Paulo: Projeto Editores e Associados, 2a. ed., 1982.). Uma das importantes discussões que o livro aborda é a respeito do Canteiro de Obras como um espaço onde se pode ou materializar a liberdade ou fortalecer a situação de “escravidão” da mão de obra envolvida…
Continua em: Canteiro
Apostila Cisterna
De toda a água encontrada no planeta, 97% é “salgada” (está nos Oceanos) e 3% é “doce”.
Apesar de considerarmos água doce apta ao consumo humano, a questão não é tão simples assim, pois destes 3%, 75% está nos lençois de gelo e geleiras. Para podermos usá-la, temos que descongelar, e alterar Biomas importantes a certos tipos de vida.
13% se encontra em aquíferos muito profundos, entre 2.500 metros e 12.500 metros de profundidade. O custo energético e tecnológico para acessar este recurso é altíssimo, não sendo uma alternativa muito interessante.
11% está no subsolo a menos de 2.500 metros de profundidade. Porém, mesmo que esta seja mais acessível, tem um papel significativo no equilíbrio do planeta, principalmente pelo ponto de vista gerado a partir das idéias de James Lovelock e amplamente aceita e difundida, que á a teoria de Gaia. Esta teoria percebe o Planeta Terra como um organismo vivo, que responde a todas as intervenções feitas sobre ele, em um processo de auto regulação, buscando um equilíbrio dinâmico para conservar a vida na terra. De acordo com Lovelock, uma evidência desta teoria, está na manutenção constante dos níveis de oxigênio encontrados na atmosfera sempre em 21%. Se esta quantidade variasse para 25%, com qualquer fogo que se iniciasse, a combustão seria tão forte, que hoje estaria tudo queimado.
Mesmo o oxigênio sendo um elemento extremamente reagente, como é que ele se mantém constantemente a 21% no ar? Nem mais, nem menos. Este é um fenômeno próprio de Gaia, um organismo vivo que se auto regula.
No caso das águas subterrâneas, uma das funções, é regular temperatura e pressão. Não é a toa que na Cidade do México, o solo abaixa 10 cm por ano (Revista Megacidades – encarte do Estado de São Paulo), já que sua população é abastecida com água subterrânea a muito tempo. Conforme é retirada, a pressão no subsolo aumenta.
Portanto, devemos evitar intervenções cirúrgicas em nosso planeta e trabalhar aonde este pode cicatrizar, que são suas camadas superficiais, na pele de Gaia.
Somamos então 75% (Gelos e Geleiras) + 13% (águas profundas) + 11% (águas subterrâneas), o que totaliza 99% de 3% de água doce. Então o que temos disponível ao consumo humano é 1% deste total, ou 0,03% de toda a água encontrada no planeta.
E é nestes 0,03% diponível aonde estamos jogando todo o nosso esgoto, resíduos industriais, pesticidas, etc… Esta é a parte que encontramos na atmosfera, nos rios, lagos e lagoas e solos superficiais.
A cada ano que passa, nosso nível de consumo de produtos industrializados tem aumentado, e junto à isso, aumenta o montante de lixo industrial e doméstico que são despejados nos rios, lagos e lagoas, fixados ou encinerados no solo e volatilizado na atmosfera. Este dado pode ser confirmado quando são divulgados dados do tipo: “40% das mortes prematuras no mundo são consequentes de poluentes na água e geralmente em nações em desenvolvimento”, “1,1 bilhões de pessoas têm pouco ou nenhum acesso a água potável e 80% das doenças infecciosas no mundo são causadas por água contaminada”.
O que podemos fazer, frente a esta realidade? Será que precisamos continuar jogando esgoto, lixo tóxico e produtos químicos nesta pouca e preciosa água limpa que ainda temos disponível?
Bom, para entendermos o que fazer, um princípio fundamental seria “SEMPRE UTILIZAR SISTEMAS BIOLÓGICOS”, ou seja vivos. Depois, pensar em como Ciclar a água, Reduzir seu consumo, Reutilizar a água consumida, Armazenar a água da chuva e Absorver no solo.
Então, segue um passo-a-passo para orientar os que querem construir uma cisterna de ferrocimento, ou seja, armazenar a água da chuva e depois colocá-la em algum ciclo biológico (é importante entender que o homem também faz parte deste ciclo). Se conseguirmos dispersar esta semente, tenho certeza que estaremos fazendo muito pelo solo, por todas as formas de vida e uma significativa melhora na qualidade de vida social.
Tradução feita de capitulo do livro “Ferment and Human Nutrition” escrito por Bill Mollison
A maior parte deste livro é sobre fermentação, porque é uma excelente maneira de prolongar a vida de muitos alimentos, além de formar proteinas e vitaminas em alimentos nutritivamente pobres de “amiláceas”. Muitos povos ocidentais estão familiarizados com levedos de pães, massa azeda, queijos e cervejas. Mas poucos de nós percebemos como habilmente povos tradicionais enriquecem os sabores em suas dietas, ou fazem carboidratos simples se tornarem mais nutritivos através da fermentação.
Não que o fermento seja usado somente na produção de comida, ele é também uma parte do processo de silagem e compostagem, um método de produção de fibras e tinturas através do “apodrecimento” de plantas, um caminho para libertar as sementes de suas capsulas, ou “os pelos de esconderijos”, e um antigo método de preparar sementes para a germinação removendo suas substâncias inibidoras como aquela cobertura das sementes que parece um sabão.
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Tradução de texto do livro “The composting Toilet System Book, David del Porto”
Um sanitário a base de terra é um sanitário seco onde terra seca é usada para cobrir os excrementos. Até mais ou menos 100 anos atrás, o tradicional “lugar para aliviar as necessidades” para as pessoas que viviam no campo era ou uma casinha com um buraco fossa, ou um sanitário a base de terra. Por este sanitário ser raso, o processo de decomposição era aeróbico, permitindo a ocorrência do processo de compostagem. Esta é provavelmente a primeira construção de um sanitário seco.
Na Inglaterra, a Rainha Victoria usava um sanitário a base de terra no Castelo de Windsor, embora muitos tipos a base de água eram disponíveis. Por muitos anos, sanitários a base de água e de terra foram sistemas rivais, com vitórias e derrotas em ambos os lados.
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