No final da década de 70 o Arquiteto Brasileiro Sérgio Ferro, exilado na França e professor da Escola de Arquitetura de Grenoble, escreve o livro “O Canteiro e o Desenho” (Ferro, Sérgio. O canteiro e o desenho, São Paulo: Projeto Editores e Associados, 2a. ed., 1982.). Uma das importantes discussões que o livro aborda é a respeito do Canteiro de Obras como um espaço onde se pode ou materializar a liberdade ou fortalecer a situação de “escravidão” da mão de obra envolvida.
Quando o Arquiteto vai além da prancheta e participa da obra ele gera novas oportunidades a benefício do objeto construído e de seus autores. Neste processo se estabelece um diálogo entre os saberes, do arquiteto, hábil no Desenho, conhecedor dos livros, referências… e do pedreiro com suas experiências de Canteiro, sua cultura construtiva de prática e de origem, além de uma grande memória muscular.
Sérgio Ferro chama atenção a questões que estão por trás de um projeto que às vezes não nos damos conta. Se desejarmos igualdade social, não podemos tratar as pessoas que trabalham conosco, como “escravos”: sem história, alienados, que executam ordens e não dão propostas. Devemos tratá-los como colaboradores e propositores da mudança. Neste caso, a obra se torna também um instrumento gerador de autonomia.
Interessante é associar Autonomia e Autosuficiência, o objetivo é o mesmo, o primeiro usamos para um ponto de vista social e o segundo para ambiental.
Pouco se faz no meio acadêmico em relação a trabalhos práticos de obra com estudantes de Arquitetura. Poucos vivenciaram um canteiro. Se não desenvolvermos uma visão mais integral do que fazemos, continuaremos a cometer as barbáries sociais e ambientais que praticamos.
Neste mesmo final da década de 70, na Austrália, Bill Mollison e David Holmgren escreviam o livro “Permacultura um”, iniciando uma metodologia para o Design de assentamentos humanos sustentáveis, a partir de uma visão da relação íntima entre o homem e a natureza, mais uma vez, uma visão integral. O curioso é ver trabalhos diferentes, publicado em países e contextos diversos, utilizando exemplos e linguagens próprias mas, no plano de fundo o mesmo princípio, o cuidado e a percepção da vida e suas relações como uma coisas única, não segmentada.
Nesta página aparecem trabalhos em Canteiro Experimental que desenvolvemos. É incrível o quanto estas atividades se fazem realizadoras para todos que participam dela.
essa questão é mais antigo do que se imagina. Ainda no século XIX na Inglaterra Vitoriana, em pleno desenvolver da chamada Revolução Industrial, o critico de arte John Ruskin, depois seguindo pelo aluno William Morris, ja tratavam desta questão de divisão de quem pensa e de quem faz. Mas até antes disso, com os enciclopedistas do século XVIII, principalmente Diderot, ja se falava da importância do trabalho manual acima do intelectual. Mas voltando a Ruskin, dizem que ele é medievalista porque apreciava os canteiros de obras da Idade Média, no qual o trabalho do arquiteto se confundia com o dos operários, será então que Sergio Ferro é medievalista? Creio que não, assim como Ruskin também não era. Mas esse não é o espaço p/ desenvolver esses pensamentos, só queria registrar que essa discussão é bem anterior a Ferro.